LIVRE ARBÍTRIO OU DESTINO?

Dois discípulos de um guru muito sábio estavam debatendo sobre um tema muito polêmico. Um dos discípulos acreditava no livre arbítrio. Segundo ele, é o ser humano quem decide o seu destino. O outro discípulo dizia que o ser humano era regido por um destino que só Deus conhecida e que determinava toda a nossa vida.
O discípulo que defendia o livre arbítrio argumentava que, se não existisse o livre arbítrio, o homem não seria responsável pelo que lhe ocorre e seria um mero joguete da existência. O outro discípulo afirmava que, se o homem pudesse tudo escolher, ele ficaria perdido e se desviaria do caminho, e que Deus traça nosso destino para nos ensinar. Ambas as posições pareciam bastante sensatas e o debate estava longe de terminar.
Até que ambos decidiram perguntar ao guru qual dos dois estava com a razão. Após o encontro com o mestre, fizeram a pergunta sobre quem estaria certo e esperavam, ansiosos, pela resposta. Mas o guru apenas respondeu:
- Acompanhem-me!
Os três foram caminhando para fora do mosteiro na direção duas estradas próximas uma da outra. O guru se colocou no meio de ambas e disse:
- Aqui podemos ver dois caminhos diferentes, que levam para diferentes lugares. Agora me digam, vocês podem optar em seguir um ou outro caminho?
- Sim, eles disseram.
O discípulo que defendia a existência do livre arbítrio ficou radiante. Acreditava que o guru dera razão a ele e confirmara a existência da livre escolha humana. Mas o guru continuou:
- Observem que um dos caminhos é mais lamacento, e outro é mais seco, porém pedregoso, cheio de pequenas e grandes pedras. Agora eu pergunto: se por acaso você escolher o caminho lamacento, terá que enfrentar a lama, correto? E se você escolher o caminho pedregoso, terá inevitavelmente que deparar-se com as pedras, concordam?
- Sim mestre, é verdade, disse o discípulo defensor do destino, acreditando que o guru estava agora dando razão a ele.
- Mas eu poderia sair de um caminho e ir para outro, não? Perguntou o discípulo favorável ao livre arbítrio.
- Pode sim – respondeu o guru. – Mas caso mude de ideia e escolha a outra estrada, de qualquer forma, para cruzar o caminho, terá que enfrentar os desafios da outra estrada, no caso, as inúmeras pedras ou a lama.
Os discípulos concordaram com o guru. Este continuou:
- Mas se eu estiver percorrendo o caminho da lama e me sujar todo, não posso escolher não ficar sujo. Posso tentar me limpar, mas continuarei sujo e posso me sujar ainda mais. Se escolher o caminho pedregoso, posso tropeçar numa das pedras e cair no chão. O ato de me sujar na lama e tropeçar em pedras faz parte de uma possibilidade de destino dentro do caminho. Mas se eu tropeçar, e estiver caindo, não posso escolher não cair. E se eu cair na lama, não posso escolher não me sujar. Estas duas possibilidades fazem parte do destino, e são inexoráveis. Mas observem que ambas vieram de uma livre escolha.
Os discípulos mais uma vez concordaram com o guru. Ele completou:
- Não adianta vocês ficarem debatendo se o livre arbítrio é mais importante, ou se o destino é mais importante, ou se um existe e o outro não existe. Seria como debater alegando que o dia é mais importante que a noite, ou vice versa. Um não existe sem o outro. O livre arbítrio representa a escolha de qual dos caminhos vamos seguir. O destino representa o que encontramos neste caminho após a escolha. Podemos escolher entre diversas estradas, diversos caminhos, mas cada um deles vai trazer uma série de consequências que são um efeito de nossa escolha inicial ou das escolhas ao longo do percurso. Dessa forma, o livre arbítrio cria o destino e o destino pode influenciar o livre arbítrio. Ambos existem e são parte de um mesmo processo.

Autor: Hugo Lapa

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