Você se lembra do dia em que ficou velho?

 


Não da data, mas do momento. A data é uma série de números, e o tempo não se conta em dias, meses, anos, mas em unidades subjetivas chamadas “momentos”.
Não ficamos velhos aos poucos, na progressão ordinária dos segundos: ficamos velhos de repente (ou, como diziam os mais velhos do tempo em que ainda não éramos velhos, “num átimo”).
A velhice é abrupta. É um susto.
Esqueça aquele primeiro fio de cabelo branco, depois o outro, e mais um. Isso não é velhice. As cãs (assim os velhos ainda mais velhos chamavam os cabelos brancos) são só falta de melanina.
Esqueça as rugas, a dor nas juntas, a pontada. A pele flácida, o desejo que não encontra mais a tomada, a palavra que se extravia entre um neurônio e outro.
A velhice eclode é quando repetimos, sem ironia, uma frase do avô. Quando compreendemos o que a mãe queria dizer – não o “compreender” de “entender”, mas de ter uma revelação das intenções por trás daquilo que, lá atrás, pareceu tão absurdo.
Ficamos velhos de uma vez só, mas não uma única vez.
Ficamos velhos de novo, e de novo, e de novo, até que ficar velho se torne uma espécie de “novo normal”.
Fiquei velho no momento em que, de moto próprio, guardei a manteiga na geladeira.
Eu tinha 17 anos.
Poderia dizer que fiquei adulto, mas seria eufemismo: “adulto” é o velho ainda em estágio de negação.
No dia em que guardei a manteiga – na geladeira de segunda mão da primeira casa que foi minha – me reconciliei com minha mãe e a perdoei pela manteiga dura nos cafés da manhã de uma infância inteira.
Velhice também é isso: se reconciliar (reconciliar é chamar para junto de si; é estarmos, os antes separados, agora no mesmo lugar).
Fiquei velho quando a expressão “no meu tempo” saltou da boca da minha avó para a minha.
Quando podia fazer sexo e não fiz. Quando fiz sem ter vontade de fazer. E me peguei com o aquele olhar alheio que tantas vezes flagrei nos olhos dos meus pais.
Fiquei velho quando reclamei do barulho.
Quando ninguém me impedia de ir além da arrebentação, e permaneci no raso.
Quando desviei o carro da primeira poça d’água – e me ouvi dizer, um minuto antes da frustração, “Passa na poça, pai! ”. A poça envelhecera, se enchera de perigos. E a criança que achava lindo o véu de águas se formando na lateral dos pneus se calou.
É isso. Ficamos velhos quando a criança se cala. (Eduardo Affonso)


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